quarta-feira, 25 de julho de 2012

Participação dos bispos brasileiros no Concílio Vaticano II - parte III: Rede de relações


Como afirmado em artigo anterior, os bispos brasileiros puderam participar, durante o Concílio, de inúmeras redes de relações que lhe possibilitaram contato com a mais elevada escola teológica e com prelados de todo o mundo. O Concílio significou uma riqueza teológica, pastoral e cultural inigualável. A experiência acumulada durante o Vaticano II produziu efeitos importantes em nosso episcopado e em toda a Igreja do Brasil.
Entre as redes de relações, encontrava-se o grupo conhecido como “Igreja dos Pobres”. Constituía-se de um grupo de bispos, inclusive alguns brasileiros, comprometidos com questões sociais e dispostos à vida despojada. Como resultado deste grupo, temos o “Pacto das Catacumbas” (cf. artigo) celebrado por aproximadamente 40 Padres Conciliares.
Grande importância desempenhou “O Ecumênico”, como era chamado por Dom Helder. Consistia no grupo que reunia diversas Conferências Episcopais e outros organismos, contando com a liderança do cardeal Leo Suenens de Malinas-Bruxelas (Bélgica) e com o apoio de secretaria da Conferência Episcopal francesa. Este grupo também se intitulava “Conferência dos 22” devido ao número de organismos envolvidos. Ninguém falava em seu nome durante o Concílio. Influía indiretamente no debate conciliar por meio de informações e orientações transmitidas aos padres conciliares. Segundo Raimundo Caramuru de Barros ― assessor da CNBB durante o Concílio ―, o grupo teria começado depois de uma conversa entre Dom Manuel Larraín e Dom Helder Câmara às vésperas do Concilio, na qual Dom Larraín dizia temer  a possibilidade de um Concílio breve, consolidando as posições de Trento e Vaticano I. Desta conversa inicial teria nascido o grupo, coordenado por Suenens e contando com Helder como um de seus mais influentes articuladores.
Havia também o Coetus Internationalis Patrum, maior grupo de pressão da minoria conservadora conciliar. Contava com a presença dos três fundadores – o francês Marcel Lefebvre e os brasileiros Proença Sigaud e Castro Mayer – e aproximadamente 250 prelados. O grupo colocava objeções à Colegialidade Episcopal. Defendia o dogma da mediação de Nossa Senhora e a condenação do comunismo. Apresentava visão negativa em relação aos judeus e postura antiecumênica. Combatia o esquema sobre a Igreja no mundo contemporânea, recomendando sua completa rejeição. A radicalização de suas posições fez o grupo isolar-se no Concílio.
Acrescentam-se, ainda, as redes formadas por famílias religiosas, nacionalidades, línguas – bispos acolhidos nas casas de suas congregações – e pelos bispos ligados aos movimentos leigos – assistentes e ex-assistentes da Ação Católica. Além disso, cada bispo estabelecia inúmeros outros contatos, possibilitando diálogo, troca de experiências e aprofundamento dos temas discutidos no Concílio.

Pe. Ademilson Luiz Ferreira, mestre em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) de Belo Horizonte/MG, é vigário paroquial de Santo Antônio, de Junqueirópolis
Email pe.ademilson@terra.com.br

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Sacramentalidade do Episcopado no Concílio Vaticano II

Entre as conquistas teológicas do Concílio Vaticano II está a reflexão sobre a teologia do Episcopado e a definição de sua “sacramentalidade”, colocada em dúvida pela Escolástica. A Idade Média reduzia o sacramento ao aspecto cúltico e negou reconhecer no ministério episcopal um grau próprio da Ordem, pois o sacerdócio possuía o pleno poder da transubstanciação. Não havia, neste sentido, diferença entre Presbítero e Bispo.
A teologia do segundo milênio privilegiou uma concepção individualista do ministério ordenado, reduzindo-o ao “poder de consagrar”. O Episcopado era considerado não um sacramento, mas uma dignidade na qual não havia nenhum acréscimo no poder de ordem, mas no de jurisdição. Deste modo, compreendia o Episcopado em função do Presbiterado.
O Vaticano II supera a dicotomia entre poder de ordem e de jurisdição. Reconhece o Episcopado não como “complemento” do Presbiterado, mas como “plenitude” do sacramento da Ordem. Agora, o Presbiterado é compreendido em função do Episcopado. Juntamente com o múnus de santificar, a legítima ordenação episcopal comunica o de ensinar e reger. Comunicados diretamente por meio da ordenação, seu exercício regula-se por leis canônicas.
Para o Concílio, os bispos são “vigários e legados de Cristo” (LG III, 27a) e não do Papa. São revestidos de autoridade própria, ordinária e imediata, exercida pessoalmente em nome de Cristo. Seu poder não consiste em participação do poder concedido por Deus a Pedro e aos seus sucessores, mas, sim, do poder que foi dado diretamente por Cristo ao conjunto do Colégio Apostólico, e que se transmitiu ao Colégio dos bispos. A autoridade dos bispos não deriva do Papa, mas do próprio Cristo.
O Concílio considera o Papa como cabeça do Colégio Episcopal. Assim como os bispos não são seus vigários, ele também não o é do Colégio Episcopal. Por isso, o Romano Pontífice tem poder pleno, supremo e universal na Igreja. Também a Ordem dos Bispos, junto com o Papa, detém o poder supremo e pleno sobre a Igreja inteira. A autoridade suprema na Igreja pode ser exercida de maneira primacial pelo Romano Pontífice ou colegial, pelo Colégio dos Bispos unidos ao Papa. Mesmo exercendo o Primado, o Papa não está fora do Colégio Episcopal e não pode ser separado ou isolado do Colégio. O exercício do primado não se dirige por normas subjetivas ou arbitrárias, mas está vinculado a normas objetivas, como o bem da Igreja, a Palavra de Deus, a Tradição eclesiástica e dos Concílios Ecumênicos e o ofício episcopal.

Padre Ademilson Luiz Ferreira

Pe. Ademilson Luiz Ferreira é Mestre em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) de Belo Horizonte/MG.
E-mail: pe.ademilson@terra.com.br

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O resgate do vital humano na “produção” ética e inculturada do instituído




Em meio às rápidas transformações de nossa sociedade, identificamos uma crise que é do humano. Ela é também identificada como uma crise ética por excelência. Os fenômenos desta crise, mesmo os aparentemente exteriores, nos atravessam por inteiro e profundamente; dizem, inclusive, quem somos neste momento da história. Esta crise apresenta traços nítidos em seus contornos, profundidade e extensão. Ela acabou criando um desequilíbrio das bases vitais do humano, atingindo suas raízes mais profundas, o seu próprio ethos. Face a ela, urge resgatar o vital humano. No resgate deste vital, identificamos vários elos sustentadores do humano presentes já na própria “produção do instituído”. Isto aponta, antes de tudo, para as nossas raízes mais profundas, o ethos, onde se dá a elaboração das “evidências primitivas”, como primeiro passo da elaboração das normas que regem a convivência humana. Identificamos, igualmente, momentos subseqüentes de explicitação do instituído, à medida que entra em cena a mediação da moral, do direito e da própria ética.
Prof. Dr. Frei Nilo Agostini

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

As pérolas da vida


A maior pérola da existência terrena é a pessoa humana, com suas reais condições de vida saudável e de dignidade. A isto se junta sua capacidade de decisão, de empenho e de discernimento para realizar aquilo que convém e que ajuda na sua real existência.

O discernimento, também entendido como escolha consciente e livre, é a capacidade de opção, fazendo investimento no que é bom, rejeitando tudo aquilo que é ruim e que prejudica a força da esperança contida no coração de todas as pessoas. É marca fundamental na pessoa humana a sabedoria nos julgamentos, na administração, na equidade e no bom senso. Importa ter um coração sábio e inteligente, porque ali reside a condição do pensar e do conhecimento do bem e do mal.

As atitudes de dureza de atos são prejudiciais para uma comunidade, seja ela qual for. A família pode ser a maior e primeira prejudicada, convivendo com práticas autoritárias, com mandos e desmandos de formas inconseqüentes. Toda prática autoritária acaba sendo corrupta e exploradora das pessoas.

Podemos dizer que a sabedoria divina é uma grande pérola, mas tem que ser bem usada, sabendo discernir com precisão o que é bom e o que é mal na comunidade. As pérolas são tesouros como sinais de vida. No dizer dos provérbios: "Feliz o homem que encontrou a sabedoria..., mais feliz ainda é quem a retém" (Pr 3, 13-18). É como encontrar ouro, prata e objetos preciosos. Jesus fala do Reino como pérola a ser procurada. A sociedade atual tem de tudo, mas nem tudo faz bem para o ser humano. É necessário distinguir o que serve para ajudar o homem e a mulher na sua dignidade, no ser imagem e semelhança de Deus.

A maior pérola é a filiação divina do ser humano. Enfim, a vida humana, como maior pérola na história, é uma conquista diária, com lutas e enfrentamentos a todo instante. E não é fácil fazer o bem no meio de tantas propostas oferecidas pela cultura do mal e da violência ao ser humano.

Dom Paulo Mendes Peixoto Bispo de São José do Rio Preto – SP
www.cleofas.com.br

sexta-feira, 22 de julho de 2011

O SACERDOTE DEVE ENCARNAR OS TRÊS “M”, SER MISSIONÁRIO, MEDIADOR E MÁRTIR



Para o arcebispo Savio Hon Tai-Fai, o sacerdote deve encarnar os três “M”, sendo missionário, mediador e mártir. O secretário da Congregação para a Evangelização dos Povos fez esta reflexão no último sábado, ao presidir a ordenação sacerdotal de um frade franciscano na basílica romana de Santa Maria de Aracoeli. Dirigindo-se ao ordenando, Frei Mauro Zannin, O.F.M. nascido na Suíça, o prelado comentou o Evangelho do 15º domingo do Tempo Comum, que conta a parábola do semeador (Mt 13, 1-23). Entre seus discípulos, “Ele quis escolher alguns em particular, para que, exercitando publicamente, na Igreja e em seu nome, o ofício sacerdotal a favor de todos os homens, continuassem sua missão de mestre, sacerdote e pastor”. Neste contexto, indicou o secretário do dicastério vaticano, “ser missionário significa ser enviado pelo Pai para amar”. O sacerdote, prosseguiu, deve ser também mediador, como indicou o Papa Bento XVI, definindo o presbítero como “mediador entre Deus e os homens”. Se na vida terrena “não faltam os sofrimentos e as provações, (…) o crente – e sobretudo o sacerdote – deve saber ter esperança e perseverança na glória futura”. O terceiro “M” do sacerdote é o que evoca o martírio, declarou Dom Hon Tai-Fai, no dia em que a Igreja celebrava a festa dos 120 mártires chineses beatificados em vários grupos entre 1746 e 1951 e canonizados pelo Papa João Paulo II em 1º de outubro de 2000. “O Evangelho – comentou o prelado, referindo-se ainda à passagem do semeador – fala do terreno bom para acolher a Palavra. O sangue dos mártires fecunda o terreno para a Palavra. Jesus Cristo é a Palavra definitiva e eficaz que saiu do Pai e voltou a Ele, cumprindo perfeitamente sua vontade no mundo. O semeador que leva a palavra se converte na própria Palavra.” Para isso, o arcebispo exortou o ordenando a ser “testemunha de Cristo, para que, com a palavra e o exemplo, possa construir a Igreja e ser o perfume de Cristo em seus ensinamentos, em sua alegria e em seu apoio aos fiéis”. “Siga o exemplo do Bom Pastor, que não veio para ser servido, mas para servir”, convidou. O prelado concluiu citando uma oração de São Tomás, “porque está cheia do espírito de São Francisco”: “Meu Deus, não te esqueças de mim quando eu me esqueço de ti. Não me abandones, Senhor, quando eu te abandono. Não te afastes de mim quando eu me afasto de Ti. Se fujo de Ti, chama-me; se me resisto a ti, atrai-me; se caio, levanta-me”. “Concede-me, eu te peço, uma vontade que te busque, uma sabedoria que te encontre, uma vida que te agrade, uma perseverança que te espere com confiança e uma confiança que, no final, chegue a possuir-te.”

fonte:alphaeomega.org.br.apud.zenit. acessado 13/07

terça-feira, 5 de julho de 2011

Basílio Magno e a Divindade do Espírito Santo

Pe. Ademilson Luiz Ferreira, membro do presbitério de Marília, atualmente está cursando Mestrado em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) de Belo Horizonte/MG (onde reside).

E-mail: pe.ademilson@terr

http://diocesedemarilia.org.br

“Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida, e procede do Pai e do Filho; e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado”.

A afirmação do Símbolo Niceno-Constantinopolitano é herança direta de São Basílio Magno (329-379), bispo de Cesaréia (370-379).

Basílio viveu na “idade de ouro” da patrística, fértil período na história da Igreja e na difusão do cristianismo. Grande pai e doutor da Igreja, empenhou sua vida na defesa da fé cristã, reforma da liturgia, edificação da vida monástica, além do cuidado dos pobres. Combateu os “arianos” e “pneumatômacos”, hereges que negavam a divindade de Jesus e do Espírito Santo. Para estes, tanto o Filho como o Espírito seriam “criaturas”.

Em sua obra “Tratado sobre o Espírito Santo”, Basílio afirma a igualdade entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo e o faz através de dois argumentos:

a. A tradição batismal. Para Basílio, a profissão de fé no Pai e no Filho e no Espírito Santo é extraída da tradição batismal. “Devemos crer segundo a maneira como fomos batizados” e “glorificar conforme a nossa fé”. O Espírito é associado ao Senhor (Cristo) e ao Pai no Batismo.

b. A doxologia. A maneira como louvamos revela a identidade de Deus. A doxologia (o louvor) revela a ortodoxia (a correta doutrina). Enquanto alguns se limitam a glorificar ao Pai, pelo Filho no Espírito Santo, Basílio não teme em dar glória ao Pai,com o Filho e com o Espírito Santo. A glória é comum a cada uma das pessoas divinas.

Para Basílio, o Espírito é inseparável do Pai e do Filho e isto se expressa no batismo, na confissão de fé e na recitação da doxologia. O Espírito não é “criatura” ou de “condição servil” e inferior ao Pai e ao Filho, ele é também Senhor, é divino por natureza.

Para falar das relações entre o Pai e o Filho e o Espírito Santo, Basílio afirma que o Espírito é “co-enumerado”, “co-ordenado” e “co-glorificado”, ou seja, ele é nomeado com o Pai e o Filho, está na mesma ordem, no mesmo nível, nem abaixo nem acima das outras pessoas e “com o Pai e o Filho é adorado e glorificado”. As três pessoas têm a mesma honra e dignidade. Quem recusa aceitar o Espírito compromete sua fé no Pai e no Filho.

Interessante notar que o Símbolo Niceno-Constantinopolitano, cujo artigo referente ao Espírito devemos a Basílio, afirma que o Pai é Deus, o Filho é “Deus de Deus” (portanto também é Deus) e o Espírito é “Senhor que dá a vida” e não se afirma, ao menos textualmente, que “o Espírito Santo é Deus”. Como, portanto, podemos compreender a divindade do Espírito Santo a partir do Credo e da teologia de Basílio?

Basílio defende a “divindade do Espírito Santo” sem recorrer ao termo “consubstancial” - atribuído ao Filho e que gerou controvérsias por não estar na Escritura - e sem chamá-lo de Deus. O Espírito é “Senhor”, não servo nem criatura (“Senhor” ou “kyrios” pode ser considerado sinônimo de Deus – Jesus é Senhor). O Espírito “dá a vida”. O único “doador” da vida é Deus, portanto, o Espírito é Deus. Neste sentido, as palavras “Senhor” e doador da vida, atributos divinos predicados ao Espírito Santo advogam em favor de sua divindade. Além disso, este “Senhor que dá a vida” com o Pai e o Filho é adorado e glorificado. Não se pode adorar e glorificar a não ser a Deus.


sexta-feira, 17 de junho de 2011

Bioética: uma ciência preocupada com a vida

Prof. Dr.Frei Nilo Agostin, OFM

A Bioética é uma ciência nova. Tem 40 anos. Ela teve início na década de 70 do século passado, quando se começou a ver que o avanço das tecnologias necessitava de um acompanhamento ético, sobretudo as biociências. Cunhou-se o termo bioética, justamente para que pudéssemos fazer com que as ciências relacionadas à vida, às biotecnologias, pudessem servir ao ser humano e ajudá-lo no seu processo de humanização. Hoje, o termo bioética abrange toda a preocupação voltada à vida, mas também alcançando os seres não vivos, numa visão abrangente da criação toda.
Há um pluralismo muito grande dentro da Bioética e o consenso está começando a se fazer. Por que tal pluralismo? Porque as mais diferentes ciências são interpeladas e começam a responder aos desafios da Bioética. Aparecem também profissionais os mais diversos, tendo que se pronunciar sobre questões de Bioética, seja do nascer, seja do morrer, seja das questões de saúde ou de engenharia genética, ou até ambientais. E por isso há uma diversidade de posições, quem nem sempre formam um real consenso.

fonte: http://www.franciscanos.org.br/nilo/artigos/2010/pdf/29_141010_bioetica.pdf acesso 17/06/2011